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Disputa por minerais críticos redefine estratégias de Estados Unidos, União Europeia e China, amplia o interesse pelo Mercosul e cria uma oportunidade inédita para o Brasil transformar riqueza mineral em liderança industrial

Durante boa parte do século XX, o petróleo foi o principal ativo estratégico da economia mundial. Hoje, porém, a disputa entre as grandes potências passa por outro grupo de recursos naturais: os chamados minerais críticos. Lítio, terras raras, grafite, cobre, níquel, cobalto e nióbio deixaram de ser apenas commodities para se tornar peças centrais da segurança econômica, da transição energética e da competitividade tecnológica.

Presentes em baterias, veículos elétricos, turbinas eólicas, data centers, semicondutores, equipamentos hospitalares, robôs industriais, satélites, sistemas de defesa e inteligência artificial, esses minerais passaram a ocupar posição estratégica nas políticas industriais de Estados Unidos, União Europeia, China, Japão e Coreia do Sul.

O movimento é sustentado por números.

O relatório Global Critical Minerals Outlook 2026, da Agência Internacional de Energia (IEA), projeta que a demanda global por minerais críticos praticamente dobrará até 2040. O lítio deverá apresentar o maior crescimento, com demanda superior a três vezes os níveis atuais, enquanto grafite, níquel e terras raras também terão expansão significativa, impulsionados principalmente pelos veículos elétricos, armazenamento de energia, redes elétricas e fontes renováveis.

Ao mesmo tempo, cresce a preocupação com a concentração das cadeias produtivas.

Hoje, a China mantém posição dominante no processamento de diversos minerais estratégicos. Segundo a IEA, o país controla entre 70% e 95% do refino de diferentes minerais críticos e segue como principal fornecedor mundial de terras raras processadas.

Essa concentração transformou a segurança do abastecimento em prioridade para governos e empresas.

Em julho deste ano, a própria IEA alertou que uma eventual implementação integral das restrições chinesas às exportações de terras raras poderia colocar em risco cerca de US$ 6,5 trilhões em produção industrial fora da China, afetando cadeias dos setores automotivo, tecnológico, energético e de defesa.

É nesse contexto que a América do Sul volta ao centro das atenções.

A região reúne algumas das maiores reservas mundiais de minerais considerados estratégicos para a economia de baixo carbono. O chamado Triângulo do Lítio, formado por Argentina, Bolívia e Chile, concentra parcela expressiva das reservas globais. O Brasil, por sua vez, possui importantes reservas de grafite, nióbio e terras raras, além de potencial para ampliar sua participação em toda a cadeia de valor desses insumos. A IEA destaca ainda que a América Latina responde por cerca de 25% da produção mundial de lítio, participação que deve crescer quase 50% até o fim da década, além de ser relevante em cobre, estanho, zinco, nióbio e terras raras.

Para Rodrigo Bueno Prestes, advogado especializado em Direito Internacional Econômico e pesquisador das relações entre Mercosul e União Europeia, a discussão ultrapassa a mineração.

“A corrida por minerais críticos representa uma mudança estrutural na economia internacional. Não estamos falando apenas de recursos naturais, mas de tecnologia, política industrial, segurança energética e capacidade de inovação. Quem controlar essas cadeias produtivas terá uma vantagem competitiva significativa nas próximas décadas.”

Segundo ele, essa transformação altera profundamente o papel do Mercosul.

“Quando começaram as negociações do acordo Mercosul-União Europeia, em 1999, o debate estava concentrado na redução de tarifas e na ampliação do comércio. Hoje, o cenário é completamente diferente. O acordo passa a ser também uma ferramenta de segurança econômica, diversificação de fornecedores e fortalecimento das cadeias produtivas.”

A Europa busca novos parceiros

A União Europeia vem acelerando políticas para reduzir sua dependência externa de matérias-primas estratégicas. O Critical Raw Materials Act, aprovado em 2024, estabeleceu metas para ampliar a mineração, o processamento e a reciclagem desses minerais dentro do bloco até 2030. Apesar disso, especialistas avaliam que a Europa ainda enfrenta dificuldades para atingir esses objetivos devido a entraves regulatórios, financiamento insuficiente e demora no licenciamento de projetos.

Paralelamente, Bruxelas intensificou a busca por parceiros considerados confiáveis.

O Brasil aparece como um dos principais candidatos.

Em junho deste ano, representantes da União Europeia visitaram projetos brasileiros de terras raras e defenderam uma parceria estratégica baseada não apenas na exportação da matéria-prima, mas também na agregação de valor e no processamento local.

Para Rodrigo Bueno Prestes, esse movimento reforça uma mudança importante.

“A União Europeia não procura apenas fornecedores. Procura parceiros estratégicos capazes de oferecer estabilidade institucional, previsibilidade jurídica e capacidade de desenvolver cadeias produtivas mais resilientes.”

Segundo ele, isso amplia a relevância do Mercosul.

“O bloco deixa de representar apenas um mercado consumidor ou exportador. Passa a ocupar uma posição importante na reorganização das cadeias globais de suprimentos.”

O desafio não é apenas extrair. É industrializar.

Ter reservas minerais, entretanto, não garante protagonismo.

A própria IEA chama atenção para um dos maiores gargalos da indústria mundial: a diferença entre capacidade de mineração e capacidade de processamento.

Enquanto novos projetos de mineração avançam em diversos países, o refino continua fortemente concentrado na Ásia, especialmente na China. Isso significa que grande parte do valor agregado permanece fora dos países produtores.

É justamente nesse ponto que entra a visão industrial.

Segundo Rodolfo Midea, da Fácil Negócio Importação, a discussão não pode ficar restrita à extração mineral.

“O verdadeiro valor econômico está na transformação desses minerais em produtos de alta tecnologia. Não basta exportar minério. É preciso desenvolver capacidade industrial para fabricar componentes estratégicos.”

Um dos principais exemplos são os ímãs permanentes de neodímio-ferro-boro (NdFeB).

Pouco conhecidos pelo público, eles são considerados insumos críticos para motores de veículos elétricos, turbinas eólicas, robôs industriais, equipamentos hospitalares, drones, sistemas de automação e diversos produtos eletrônicos.

Segundo Rodolfo, praticamente toda a transformação industrial moderna passa por esses componentes.

“Quando falamos em transição energética, normalmente pensamos em carros elétricos ou energia eólica. Mas poucas pessoas percebem que tecnologias como essas dependem de componentes altamente especializados, como os ímãs de neodímio. Eles são pequenos, mas estratégicos.”

Ele destaca que a demanda por esses equipamentos tende a crescer rapidamente.

“Quanto maior a eletrificação da economia, maior será a necessidade de motores de alta eficiência. E isso significa uma demanda crescente por ímãs permanentes produzidos a partir de terras raras.”

Oportunidade para o Brasil

Na avaliação dos especialistas, o Brasil reúne características que poucos países conseguem combinar.

Possui disponibilidade mineral, matriz elétrica predominantemente renovável, indústria diversificada, capacidade agrícola e posição estratégica dentro do Mercosul.

Mas transformar essas vantagens em desenvolvimento econômico dependerá de políticas públicas, segurança jurídica e capacidade de agregar valor.

“A competitividade internacional será definida cada vez menos pela simples disponibilidade de recursos naturais e cada vez mais pela capacidade de desenvolver tecnologia, oferecer estabilidade regulatória e criar um ambiente favorável ao investimento de longo prazo”, afirma Rodrigo Bueno Prestes.

Rodolfo concorda.

“A indústria brasileira tem competência técnica para ocupar espaços importantes nessa cadeia. O desafio é conectar mineração, transformação industrial, inovação e desenvolvimento tecnológico. Esse é o caminho para gerar empregos qualificados e aumentar a competitividade do país.”

Uma nova geopolítica

Para Rodrigo, talvez a principal mudança dos últimos anos seja conceitual.

“Durante décadas, petróleo e gás concentraram as grandes disputas geopolíticas. O século XXI amplia esse mapa. Os minerais críticos passam a influenciar acordos internacionais, estratégias industriais, relações diplomáticas e decisões de investimento. Isso muda a forma como interpretamos o comércio internacional.”

Na sua avaliação, o Mercosul também precisa adaptar sua estratégia.

“O bloco não pode ser visto apenas como um exportador de commodities. Se conseguir combinar integração regional, segurança jurídica, agregação de valor e inovação tecnológica, poderá assumir um papel muito mais relevante na economia internacional.”

Para Rodolfo, a oportunidade é clara.

“O mundo está redesenhando suas cadeias produtivas. A pergunta não é se haverá demanda por minerais críticos e componentes tecnológicos. A pergunta é quais países conseguirão transformar essa demanda em desenvolvimento industrial.”

Em um cenário em que energia, tecnologia, defesa e inteligência artificial dependem cada vez mais desses insumos, a corrida pelos minerais críticos deixa de ser apenas uma discussão sobre mineração. Ela passa a definir o posicionamento econômico de países e blocos nas próximas décadas. E, nesse novo tabuleiro, o Brasil e o Mercosul têm a oportunidade de ocupar um espaço muito mais estratégico do que ocuparam até aqui.

(Crédito: Imagem criada por IA)

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