A cultura da reação permanente revela os limites psíquicos de um tempo marcado pela hiperestimulação
Janeiro é apresentado no Brasil como o mês da saúde mental. Criado em 2014, o Janeiro Branco surgiu com o objetivo de levar ao espaço público temas como sofrimento psíquico, cuidado emocional e prevenção ao adoecimento mental. A escolha do mês não é casual: trata-se de um período socialmente marcado por balanços, promessas de recomeço e expectativas de mudança.
Mais do que um convite ao otimismo, a campanha propõe uma revisão da própria história emocional — vínculos, escolhas, modos de viver — além de cumprir um papel fundamental no enfrentamento aos estigmas que ainda cercam a saúde mental e a psicoterapia. No entanto, é justamente em janeiro que o mal-estar contemporâneo parece ganhar mais visibilidade.
“Não estamos apenas cansados de um ano que terminou. Estamos esgotados de um modo de existir que talvez já não nos sirva mais”, analisa a psicanalista Camila Camaratta.
Esse esgotamento coletivo ganhou nome nos últimos anos. Em 2024, o Dicionário Oxford escolheu brain rot como a Palavra do Ano — expressão que pode ser traduzida como “apodrecimento do cérebro” e que passou a nomear a sensação de deterioração mental provocada pela superexposição a conteúdos banais, repetitivos e hiperinflados. Já em 2025, o termo eleito foi rage bait: a produção deliberada de conteúdos pensados para provocar raiva e gerar engajamento.
“Essas palavras não descrevem apenas modismos linguísticos. Elas descrevem um estado psíquico coletivo”, afirma Camaratta.
Segundo a psicanalista, a brain rot não se refere a um simples excesso de informação. Trata-se de algo mais profundo: a perda progressiva da capacidade de sustentar a própria vida psíquica. “O sujeito não tolera silêncio, dúvida ou espera. Precisa estar continuamente excitado, interrompido, atravessado por estímulos que o salvem do encontro consigo mesmo”, explica.
A ideia não é nova na teoria psicanalítica. Freud já apontava que o aparelho psíquico adoece quando submetido a excitações que não conseguem ser simbolizadas. Winnicott, por sua vez, falava da importância do chamado “espaço potencial” — um intervalo interno necessário para a criatividade, o brincar e a elaboração emocional. Hoje, esse espaço parece cada vez mais ocupado por demandas constantes de reação.
Quando o pensamento falha, a raiva entra em cena.
“O rage bait não cria raiva, ele a explora”, diz Camaratta. “É um dispositivo de captura de afetos brutos. Não quer convencer, quer ativar. Não convoca o simbólico, convoca o reflexo.” Nesse processo, o ódio deixa de ser uma experiência subjetiva e passa a funcionar como engrenagem algorítmica.
No Brasil, esse fenômeno encontra um terreno especialmente fértil. O livro Brasil no Espelho, de Felipe Nunes, traça o retrato de um país marcado pela insegurança permanente: medo difuso, desconfiança entre as pessoas e sensação de abandono institucional. Ao mesmo tempo, valores rígidos de pertencimento — como família, fé e identidade — surgem como âncoras defensivas diante de um mundo percebido como ameaçador.
“Esse arranjo psíquico-social produz sujeitos fatigados, mas também extremamente sensíveis a estímulos que oferecem culpados, certezas rápidas e alívio imediato”, observa a psicanalista. “A raiva digital não é ruído. É sintoma.”
Forma-se, assim, um circuito fechado: quanto menos o sujeito consegue simbolizar, mais reage; quanto mais reage, menos consegue pensar. Entre a brain rot e a indústria da raiva, instala-se um modo de funcionamento que empobrece o pensamento e intensifica o mal-estar.
Para Camaratta, talvez seja hora de repensar o próprio sentido do Janeiro Branco. “Talvez ele devesse ser menos um apelo à felicidade e mais um gesto de resistência”, propõe. “Recusar a convocação permanente à raiva, sustentar o desconforto de não responder imediatamente, proteger o pouco de espaço psíquico que ainda resta.”
No tempo atual, cuidar da saúde mental não significa aprender a ser feliz o tempo todo. Significa, antes, aprender a não ser capturado.
