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Tecnologia

Startups estrangeiras enfrentam sistema tributário mais complexo do mundo ao iniciar operações no Brasil aponta CEO da Ayres Contabilidade

Fernando BragaBy Fernando Braga15 de December de 2025No Comments4 Mins Read
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Profissional relata, a partir da entrada de uma startup canadense de crédito de carbono, os entraves operacionais e fiscais que marcam a adaptação de grupos internacionais ao ambiente brasileiro

A adaptação de empresas estrangeiras ao mercado brasileiro continua sendo um dos principais desafios para grupos que buscam expandir operações para a América Latina. A avaliação é de Alessandro Ayres, CEO da Ayres Contabilidade, com atuação multinacional e mais de 20 anos de experiência em projetos de estruturação financeira e contábil no Brasil.

Segundo ele, a entrada recente de uma startup canadense do setor de crédito de carbono, que inicia operações no país com apoio da Ayres Contabilidade, ilustra a combinação de oportunidades e barreiras estruturais do ambiente regulatório brasileiro. “O interesse de empresas estrangeiras pelo Brasil existe, mas o grau de complexidade tributária continua sendo um divisor de águas. É preciso preparar uma operação capaz de funcionar no Brasil sem comprometer o modelo de negócio original”, afirma Ayres.

O caso da empresa canadense envolve a fase inicial de implantação: definição societária, mapeamento fiscal, enquadramento contábil, implantação de controles e adequação às regras que envolvem serviços digitais e atividades ambientais, etapas que, segundo ele, avançam desde o início de 2025.

Brasil se mantém entre os países com maior dificuldade regulatória

Relatórios internacionais confirmam o diagnóstico. O antigo estudo Doing Business, do Banco Mundial, da última edição publicada em 2020 colocava o Brasil entre os países em que as empresas mais gastam horas por ano para cumprir obrigações fiscais: 1.501 horas anuais, contra cerca de 158 horas nos Estados Unidos. Pesquisas recentes da OCDE mostram que o país segue entre os sistemas tributários mais onerosos em número de declarações, regimes e especificidades estaduais e municipais.

Para empresas de tecnologia e serviços digitais, acrescenta Ayres, o impacto é ainda maior. “A legislação brasileira cria camadas diferentes para impostos federais, estaduais e municipais. Quem chega de fora precisa entender que enquadramento, CNAEs, modelo de nota fiscal, tipo de serviço e até detalhes contratuais podem alterar completamente a carga tributária.”

Startups de crédito de carbono e o desafio da conformidade

No caso da startup canadense, que atua na mensuração e comercialização de créditos de carbono, o processo inclui adequações adicionais. O Brasil é um dos países mais regulados do mundo em temas ambientais, e a criação do mercado regulado de carbono, em discussão no Congresso desde 2024, deve ampliar exigências de reporte, auditoria e rastreabilidade.

“Empresas desse segmento precisam comprovar metodologias, validar dados e estruturar relatórios com padrão compatível com o que é exigido no Brasil. Ao mesmo tempo, precisam manter a lógica operacional global. É um equilíbrio fino entre compliance e desempenho”, diz Ayres.

Modelos de adaptação: o que difere do mercado americano

A experiência comparativa com operações norte-americanas ajuda a dimensionar o contraste. Nos EUA, a carga regulatória é mais estável e o ambiente tributário, embora variado entre estados, costuma permitir projeções de longo prazo com maior precisão. “O investidor estrangeiro acostumado ao modelo americano estranha a velocidade das mudanças e a sobreposição entre normas federais, estaduais e municipais no Brasil”, afirma Ayres.

Ele explica que, em projetos conduzidos ao longo da carreira, a diferença mais sensível entre Brasil e EUA está na previsibilidade. “Nos Estados Unidos, o sistema é complexo, mas não é imprevisível. No Brasil, uma alteração estadual ou municipal pode mudar completamente o cenário tributário de um negócio.”

O que permite uma adaptação bem-sucedida

Para Ayres, operações estrangeiras que se adaptam com maior facilidade compartilham três fatores: planejamento detalhado, governança robusta e controle financeiro contínuo. Sistemas integrados, segregação correta de receitas, compliance contábil e análise de riscos são etapas que não podem ser tratadas como secundárias.

“Quando uma empresa chega ao Brasil com processos maduros e disposição para entender o sistema local, conseguimos criar eficiência. O que não funciona é replicar integralmente a operação de fora”, afirma.

No projeto com a startup canadense, conduzido pela Ayres Contabilidade, a fase atual envolve a implementação de um modelo híbrido, contabilidade brasileira alinhada ao compliance internacional, governança adaptada e estrutura tributária desenhada para permitir escalabilidade. Ayres afirma que esse desenho inicial define o futuro da operação. “Se a estrutura nasce certa, a expansão ocorre com segurança. Se nasce desalinhada, os riscos fiscais, trabalhistas e operacionais aparecem rapidamente.”

Um mercado desafiador, mas estratégico

Apesar das barreiras, o Brasil continua sendo um destino relevante. A presença de startups de economia verde reforça um movimento global: empresas do Norte Global se aproximam de países com potencial ambiental e grande mercado consumidor, como o Brasil.

“A oportunidade existe. O papel da consultoria e da controladoria é garantir que esse investimento chegue ao país sem se perder na complexidade do sistema”, conclui Ayres.

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